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Dois homens, duas premissas, um só coração

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Dois homens, duas premissas, um só coração

Há dois relatos nos evangelhos que muito me chamam a atenção. O primeiro é o de Pilatos, quando este perguntou a Cristo acerca da Verdade. O segundo é o do jovem rico que perguntou a Cristo acerca do que fazer para ser salvo. Ambos levaram ao Mestre perguntas bem semelhantes, haja vista que a Verdade e a salvação estão intimamente relacionadas. Entretanto, um e outro partiram de premissas diferentes. O então governador da Judeia não perguntou acerca da Verdade porque desejava conhecê-la, mas perguntou retoricamente como quem coloca em dúvida a sua natureza absoluta, relativizando-a, como alguém que duvida da existência eterna e imutável da Verdade. O anônimo moço rico, por sua vez, acreditava que a Verdade consistia numa simples confissão de fé, ortodoxa, que fosse pura e genuína em si mesma.

Embora ambos partissem de proposições diferentes, ignorando ou buscando a Verdade – respectivamente –, o fato é que nem um nem outro a receberam no coração. E por que não a receberam? Porque a cegueira não lhes permitia ver que a Verdade é o próprio Cristo manifestado, o qual veio ao mundo dar testemunho do Pai. O viver humano de Jesus assim como suas palavras manifestaram aos homens a única realidade, que é o próprio Deus. De maneira que a Verdade não se resume a meros conceitos ortodoxos, que podem ser cridos ou relativizados. Trata-se, em verdade, de um coração embebido de amor e obediência ao Pai, que manifesta a exata expressão do Verdadeiro. Diz-se de uma consciência que, tendo ciência conjuntamente com Deus acerca do verdadeiro caráter divino, não se curva nem serve ao espírito maligno de satanás. Antes, em amor, se condescende com tudo o que é bom, justo, amável, puro, verdadeiro, respeitável e de boa fama, manifestando os ricos atributos da Divindade.

Quão lamentável é o mundo em que vivemos. Os homens, na sua maioria, estão divididos em dois grupos: os que defendem a Verdade, como se esta fosse uma trivial conceituação doutrinária, e os que a perseguem, opondo-se a ela e colocando-a em descrédito. Por isso vivem a lutar, a se digladiar, a morder uns aos outros, movidos pela arrogância do “saber”, sem se aperceberem que de nada sabem e que ainda não aprenderam saber. Nesse sentido, não há diferença entre Pilatos e o Jovem rico. Embora, partam de bases e caminhos aparentemente diferentes, no vértice se encontram no mesmo lugar, inspirados pelo mesmo sentimento.

O conhecimento da Verdade visa primeiramente ao nosso aperfeiçoamento. Quando a Verdade não nos molda primeiramente, é sinal de que ela ainda não está em nós. Quando, todavia, a Verdade ganha nosso espírito, já não lutamos a seu favor com armas humanas, mesmo porque ela não precisa de advogado. Antes, manifestamo-la em nosso viver e dela falamos em amor, pois o amor é a Verdade.

Quão difícil me foi entender isso. Paguei alto preço até ser convencido de que não tenho e não sou a Verdade. Antes de apreendê-la, briguei muito, desafiei milhares de filhos de Deus, venci centenas deles, derrotei não poucos, machuquei seres humanos, destruí a fé de várias pessoas. Até que um dia a Verdade divina me venceu, me destruiu, me enfraqueceu, lançou-me ao solo, deixando-me manco de uma coxa. Desde então, já não consigo mais julgar, tampouco consigo impor conceitos à custa de demandas carnais, de inimizades, de partidarismo. Já não sou capaz de me sentir melhor que o outro simplesmente porque este não se parece comigo. Já não posso mais fazer distinção entre pessoas, tratando uns com diferença e outros com deferência.

Opa! Quem é este “eu” que diz essas coisas e não atenta para o proceder ao invés de dizer? Meu ego me trai. Por isso me prostro diante da Verdade e clamo por socorro:

Ah, Verdade divina, tornai-me teu súdito. Que eu ame a ti em vez de defender-te. Que eu seja um ducto por onde a tua voz possa ser emanada em vez de ser canal por onde vomito meu orgulho. Que a tua essência se manifeste em mim por meio de atos e não apenas por palavras. Que a tua sede por justiça seja a minha sede; que a tua fome por fraternidade seja a minha fome; que a tua deferência para com todos os homens faça em mim diferença; que o teu sonho por um mundo melhor, em que Deus seja tudo em todos, seja a minha realidade. Dá-me a conhecer a ti para que eu experimente verdadeira liberdade, e então, serei verdadeiramente livre.

Alexandre Rodrigues

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