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O Paradoxo da Cruz: Ser e não ser

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O Paradoxo da Cruz:

Ser e não ser

 

Com o advento da igreja institucionalizada, por volta do quarto século, a cruz se tornou símbolo de glória e triunfo. Tudo começou quando Constantino, homem das letras, teve o seu poder ameaçado, vindo a forjar sua conversão a Cristo. Na noite anterior à batalha da Ponte Milvio, contra as forças de Maxêncio, Constantino alegou ter tido um sonho, no qual uma grande cruz se erguia diante dele, contendo a seguinte inscrição: In hoc signo vinces, a saber, “sob esse signo vencerás”. No dia seguinte, ordenou a todos os seus soldados que pintassem em seus escudos o lábaro da cruz, vindo a vencer a guerra. Daí em diante, o imperador abraçou a igreja e fez dela o seu baluarte mediante o casamento do poder temporal com o poder eclesiástico.

À sombra da cruz escondia-se agora o desejo de autopreservação e conquista. O símbolo do amor, da resignação e do perdão perdeu-se nas mentes e corações e se tornou a insígnia do poder que vence pelo pavor de espadas e instrumentos de tortura. Abriu-se o caminho da apostasia.

Dezessete séculos depois, a cruz continua equivocadamente sendo invocada para fins egoísticos, com a diferença de que, nos dias atuais, se multiplicou a banalização a seu respeito. De tudo se faz a cruz: adorno, tatuagem, amuleto, estatuário, além de usarem-na para a invocação da proteção divina em lugares públicos em que, não raras vezes, se pratica tortura, corrupção, injustiça.

A cruz, enquanto objeto, mera representação do “coração” de Deus, tomou o lugar da mensagem que ela traduz: dois travessões cruzados, vertical e horizontalmente, a sinalizarem a mística e a caridade, a saber, o amor a Deus e aos homens. Foi no encontro intercessório das duas estacas que o Filho eterno revelou ao mundo o seu coração. Determinado a honrar e a santificar o nome do Pai, e movido por um amor indescritível pelos homens, Cristo fez ecoar da cruz o brado da obediência e da misericórdia. Pregados os seus pés e mãos, totalmente atado nos madeiros, demonstrou Jesus ao Universo o único caminho da salvação.

Eis a mística e a caridade em ação: com o corpo erguido e os braços estendidos, era ele próprio a cruz, cruz humana, em plena harmonia com o Pai (travessão que une a Terra ao Céu) e completa reconciliação com os homens (travessão que une o Homem aos homens).

Não chamou o Cristo aos homens para levarem pendurado no peito um crucifixo. Antes, convidando-lhes, disse: “se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Não é, pois, sem razão, que a iniciação no discipulado cristão ocorre mediante o batismo, isto é, mediante a união na morte e ressurreição com Cristo daquele que crer na mensagem da cruz. Ora, e o que é crer na mensagem da cruz senão o viver em harmonia com Deus e com os homens!? E o que é viver em harmonia com os céus e a Terra senão o abrir mão de nossa violência contra Deus (autossuficiência e ingratidão) e de nossa violência contra o nosso próximo!?

Já não quero as orações vãs, as liturgias vazias, a pudicícia de uma vida asceta, o louvor dos homens, os lugares altos, os jejuns que engordam, as prédicas que retinem como o bronze. Estou cansado das reuniões de compadres, das mãos que se apertam sem se tocarem, das coreografias ensaiadas, dos améns falados sem serem ditos, das canções cantadas inspiradas, de fora para dentro.

O que preciso, de fato, é da verdade paradoxal da cruz: a vitória do amor e a derrota do ego. Preciso vencer e ser derrotado. Mas para tanto, preciso urgentemente abandonar a dramatúrgica “vida” shakespeariana do ser ou não ser, para assumir a verdade de Cristo: ser e não ser.

Eis a questão!

Alexandre Rodrigues

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