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ESTUDO EXEGÉTICO DE HEBREUS 6:4-8

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A esse respeito temos muitas coisas que dizer e difíceis de explicar, porquanto vos tendes tornado tardios em ouvir. Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como necessitados de leite e não de alimento sólido. Ora, todo aquele que se alimenta de leite é inexperiente na palavra da justiça, porque é criança. Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal. Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno. Isso faremos, se Deus permitir. É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia. Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada. Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação (Hb 5:11 – 6:9)

Esse texto de Hebreus faz parte de um grupo de textos bíblicos chamados de difícil interpretação. Sua complexidade encontra-se nos hiatos históricos, que nos separam de sua elaboração, e que precisam ser superados com a construção de pontes hermenêuticas. O modo de ser e de perceber o mundo dos tempos bíblicos não corresponde à visão de mundo da contemporaneidade. Verdadeiros abismos separam o mundo de então do mundo pós-moderno. A hermenêutica fenomenológica e ontológica cumpre, pois, o papel de reconstruir a visão e o entendimento de textos do passado e de recuperar o seu sentido original, conforme foram escritos por seus autores e recebidos pelos destinatários imediatos.

A aplicação de princípios hermenêuticos levar-nos-á ao tempo da epístola aos Hebreus, fazendo-nos perceber os conflitos e vicissitudes de então. Emprestar-nos-á também o modo de ser e de perceber o mundo cristão do primeiro século. Assim, os temas e as ideias da epístola já não nos soarão estranhos nem deixarão dúvidas quanto aos seus reais significados.

A interpretação que não busca no texto e contexto o seu próprio significado não é digna de confiança. A Teologia contemporânea ignora a reconstrução histórica dos sentidos e preenche as lacunas do tempo com o lixo dos preconceitos doutrinários. Estes são arranjados mediante correntes de pensamentos, comprometidas – não com a verdade – mas com segmentos facciosos, manifestados isoladamente em detrimento ao todo das Escrituras. Por isso, é necessário identificarmos os contextos do texto em questão, os quais gravitam em torno dele, imprimindo-lhe significados. Geralmente o texto consiste numa pequena fração, ao passo que os contextos constroem-lhe um cenário propício para que possa significar aquilo que o seu autor deseja.

Entremos, pois, no mundo judaico-cristão do primeiro século, sob a liderança do Espírito Santo, e discirnamos o significado de Hebreus 6:4-8, seguindo a ordem disposta na epístola.

O CONTEXTO GERAL de Hebreus pode ser resumido em uma expressão: mudança dispensacional. Esta palavra (dispensação) significa basicamente duas coisas: “período de tempo” e “administração”. Neste caso, a ideia geral da epístola consiste em proclamar a mudança de tempo e, consequentemente, mudança administrativa, de acordo com a economia de Deus. Muda-se o tempo, muda-se também a forma de administrar e os seus elementos.

Logo no primeiro capítulo, encontramos a declaração de mudança no modo de falar de Deus: falava o Senhor, outrora, pelos profetas, nestes últimos dias nos fala pelo Filho (Hb 1:1-2). E assim, com a encarnação do Verbo, os elementos da antiga dispensação foram suplantados por outros a eles superiores, como claramente se diz: “remove o primeiro para estabelecer o segundo” (10:9). Deste modo temos: uma nova aliança (8:8); uma esperança superior (7:19); um novo descanso (4:8-9); um novo sacerdócio (5:1-10); um novo templo (8:1-2); uma nova lei (7:12); uma nova oferta e um novo sacrifício (10:5-12).

Todos os aspectos pontuais da carta devem ser interpretados à luz deste contexto geral, levando em conta as suas implicações: o que verdadeiramente aconteceu por ocasião da mudança dispensacional? Como ficam os elementos do antigo sistema, no sentido valorativo, frente aos do da nova aliança? Como os judeus convertidos ao evangelho devem olhar para a antiga dispensação e se relacionar com o seu conjunto de coisas (lei, templo, sacrifícios)? Qual a situação dos judeus que não receberam o sacrifício de Cristo, e que se mantêm ainda oferecendo os sacrifícios no antigo templo?

No caso específico do texto em questão, deve-se considerar três chave-hermenêuticas presentes no texto: a locução “a esse respeito” (5:11); a expressão “por isso” (6:1); e, a afirmativa “é impossível, pois, que aqueles...” (6:4). Vejamos.

O versículo 11 de Hebreus 5 começa com a expressão “a esse respeito”. O tema a ser tratado nos versículos seguintes está lançado. O pronome anafórico “esse” retoma a ideia explanada nos versículos anteriores: o novo sacerdócio, de Melquisedeque, em detrimento ao antigo, de Arão. O fato é que o sacerdócio araônico representava os homens diante de Deus, por intermédio de homens mortais e com sacrifícios meramente simbólicos. Com a nova dispensação, Deus introduziu o sacerdócio de Melquisedeque, tendo o próprio Cristo crucificado e ressurreto como mediador e sacrifício superior e eterno. Este era o assunto acerca do qual o apóstolo declarou ser “difícil de explicar” (5:11).

A dificuldade, entretanto, consistia no fato de os hebreus terem se tornado “tardios em ouvir” (5:11). Depois de 1500 anos, desde a entrega da Lei e dos oráculos divinos até Cristo, já era tempo de os hebreus terem atingido a compreensão das verdades divinas. À semelhança de Nicodemos, considerando-se “mestres”, não podiam entretanto discernir coisas básicas da revelação divina (Jo 3:10 Cp. Hb 6:11). Ainda eram crianças no entendimento, sendo necessário falar-lhes novamente as coisas elementares acerca dos oráculos de Deus (5:12).

A nova dispensação instaurada pela encarnação do Verbo inaugura a era da maturidade, em que aqueles que eram menores alcançam a maioridade. Cristo resgata o homem que estava sob a Lei, tornando-o filho maduro, com vistas ao desfrute de Sua herança (Gl 4:1-7). Assim, posicionalmente, todos os judeus que receberam o espírito de filiação por intermédio da redenção de Cristo atingiram a maioridade. Os demais, entretanto, por terem se tornado tardios em ouvir, permaneceram na condição de criança, apesar do tempo decorrido (5:11). Acontece também que mesmo os judeus convertidos ao evangelho, em razão dos conflitos culturais, tinham profunda dificuldade de compreender sem embaraço as questões relacionadas ao sacerdócio.

Ao introduzir o capítulo 6, o apóstolo o faz com a locução “por isso”, dando a entender as razões por que exorta os crentes nos versículos seguintes: os judeu-cristãos precisavam avançar dos rudimentos da doutrina de Cristo para a sua plenitude e perfeição. Alguma coisa os estava impedindo de avançar. Mas, o que exatamente? Estariam eles tentando lançar novamente os fundamentos antigos, suplantados pelos novos fundamentos da nova aliança? Que fundamentos eram esses e, por que razão arrazoavam a esse respeito?

Pensemos primeiramente um dos problemas que os judeus convertidos a Cristo enfrentavam no primeiro século: a preocupação com a salvação de seus irmãos compatriotas (Rm 9:6; 10:1). A suposta ideia pode ser verificada no texto a partir da presença de dois pronomes distintos, referindo-se à pessoa com quem o apóstolo fala (o interlocutor) e a pessoa-objeto de quem ele está falando. Isso se constata pelo fato de o apóstolo (locutor) se dirigir a um grupo identificado como “vós outros” – 6:9 (interlocutor), referindo-se a um terceiro: “aqueles que...” (6:4). Neste caso, o locutor fala com um grupo de hebreus acerca de um outro grupo. O “vós outros” foram exortados a não lançar de novo fundamentos já ultrapassados. Ao passo que os “aqueles” são os que já não possuíam esperança de salvação, pelo fato de ser impossíveis renová-los ao arrependimento. A motivação dos que buscavam lançar velhos fundamentos era em razão daqueles com quem se preocupavam. Não confundir as referências pronominais é de fundamental importância para não se chegar a conclusão equivocada.

A partir desse pressuposto, entendemos que a ideia dos judeus convertidos à Cristo, frente ao fato da não conversão de seus compatriotas, era a de encontrar justificativas para fazerem defesa “àqueles” (6:4) que não receberam o sacrifício de Cristo. Estes tais cristãos buscavam incluir como fundamento de salvação elementos da antiga dispensação que justificassem a salvação d’AQUELES que não receberam o Messias. Certamente argumentavam o fato de que, embora seus compatriotas não tivessem recebido a Cristo, tinham entretanto o arrependimento de obras mortas (adoração aos ídolos), fé em Deus (não necessariamente em Jesus), batismos (abluções – Hb 9:10) e imposição de mãos, além de crerem na ressurreição de mortos e no juízo eterno. Ora, estas coisas não deveriam mais ser levadas em conta, uma vez que a dispensação mudou, e que, consequentemente mudaram também as bases de salvação, agora presentes somente em Cristo.

Ora, sem Jesus nada disso adiantaria. Agora, o arrependimento deveria ser não mais simplesmente dos ídolos para o Deus vivo, mas do templo e seus arranjos para o Deus encarnado (Mt 3:1-2). A fé não deveria simplesmente ser manifestada quanto ao Deus de Abraão, mas também com respeito ao Filho (Jo 14:1). As diversas purificações batismais e imposição de mãos não tinham mais valor, senão o batismo em nome de Jesus Cristo e o batismo com o Espírito Santo (At 2:38; 8:17). A mera fé na ressurreição dos mortos e a crença no juízo eterno, por si só, nada podiam fazer pelos judeus, uma vez que a bênção da ressurreição e o livramento do Juízo eterno só são possíveis mediante a morte e ressurreição de Jesus Cristo.

A prova de que tal preocupação em lançar velhos fundamentos visava ao alcance dos não convertidos judeus, consiste no fato de a explicação paulina recair sobre os “AQUELES”, de quem é dito não ser possível renová-los ao arrependimento, e não sobre os “VÓS OUTROS”, acerca de quem é declarado estar persuadido das coisas que são melhores e pertencentes à salvação (6:4 Cp. 6:9).

Portanto, para a plena compreensão do texto, é preciso saber primeiramente a quem o pronome “AQUELES” se refere. Conforme o texto, “AQUELES” são os que tiveram cinco experiências descritas nos versículos 4 e 5, a saber: foram iluminados, provaram o dom celestial, participaram do Espírito Santo, provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro. Diante disso, logo alguém dirá: esses são pessoas que apostataram da fé cristã. Inclusive, muitos baseados neste texto, acreditam ser possível que alguém que verdadeiramente crê no evangelho perca a salvação. Entretanto, nem mesmo os arminianos podem crer dessa forma, uma vez que se assim fosse, estaria o texto a afirmar que uma vez caído, seria IMPOSSÍVEL renovar o pecador ao arrependimento. Ou seja, crer dessa maneira seria pregar a fatalidade, afirmando ser impossível o arrependimento depois da queda. Se assim fosse, por que Jesus convida a Sua igreja ao arrependimento, exortando-a: “lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras”? (Ap 2:5). Ora, “AQUELES” a quem se refere o apóstolo, são certamente uma classe de pessoas que cometeram o pecado imperdoável, isto é, o pecado contra o Espírito Santo (Mt 12:32). Para este pecado NÃO HÁ PERDÃO. Daí a impossibilidade de serem conduzidos ao arrependimento.

Mas por que então a afirmação de que eles provaram e participaram do Espírito Santo, da palavra, do dom celestial e dos poderes do mundo vindouro? Bem, exatamente aqui encontramos a chave que nos abre o texto.

Os “AQUELES” referidos no texto são os que estiveram sob uma chuva de graça nos tempos da encarnação e peregrinação do Filho de Deus. São todos aqueles que viveram nos tempos de Cristo e que, mesmo diante de tudo o que viram, ouviram e experimentaram, ainda assim negaram o santo de Deus. Como diz em outro lugar: “De quanto mais severo juízo julgais vós será considerado AQUELE que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o ESPÍRITO DA GRAÇA” (Hb 10:29).

Quando o Verbo entrou no mundo, manifestou-Se como Luz, que, vinda ao mundo, ILUMINA TODO HOMEM (Jo 1:9). Por isso, foram eles iluminados. “O povo que jazia em trevas VIU GRANDE LUZ, e aos que viviam na região e sombra da morte resplandeceu-lhes a luz” (Mt 4:16). Apesar disso, o mundo não o conheceu (Jo 1:10). E não somente isso, mas também provaram (testaram o sabor – lit.) o dom celestial e participaram (tiveram a dignidade – lit.) do Espírito Santo, na medida em que experimentaram as bênçãos da presença de Cristo no meio deles. Certa ocasião, depois de ter expulsado o demônio de um homem, disse Jesus: “Se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus SOBRE VÓS (Mt 12:28). E, apesar disso, não creram n’Ele. Além disso, provaram (testaram o sabor – lit.) a boa palavra de Deus, ao receberem a palavra do reino (Mt 13:19), mas em três terços dos corações, a semente não produziu fruto. E o que dizer do fato de terem eles provado os poderes do mundo vindouro? Ora, esses poderes são o poder de restauração do reino milenar. Naquele tempo, “se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará...” (Is 35:5-6). Os judeus do tempo de Cristo provaram antecipadamente esses poderes, quando Jesus, no meio deles, realizou todos esses milagres e prodígios de restauração. “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele” (Jo 12:37).

Sim, tendo “AQUELES” estado debaixo de uma chuva de graça, ainda assim produziram espinhos e abrolhos (Hb 6:8). Produziram em seus corações maldição (Gn 3:17-18), quando fizeram maldito (Gl 3:10) o Deus bendito (Rm 9:5), crucificando-O entre dois malfeitores. E, depois de terem-no matado, voltaram ao templo com o fim de continuarem seus sacrifícios pelos pecados. O que não sabiam, no entanto, é que tendo Jesus realizado, pelo Seu sangue, a remissão de pecados, “já não resta oferta pelo pecado” (Hb 10:18). Os sacrifícios oferecidos a Deus de acordo com a economia veterotestamentária, agora já não mais possuía nenhum valor ou eficácia. De modo que, ao continuar a oferecê-los, depois do sacrifício perfeito de Cristo, eles estão “de novo, crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (Hb 6:6). A cada sacrifício realizado no templo, reafirmava-se a rejeição ao verdadeiro sacrifício. Cada vez que um judeu sacrificava no altar de holocausto, crucificava para si mesmo, outra vez, o Filho de Deus. Por suas próprias atitudes, demonstravam que haviam pecado contra o Espírito Santo, cuja obra consiste em conduzir o pecador à fé no Cristo de Deus. Ao negar o Filho, atraem para si a maldição (Gl 3:7-14).

A terra (coração), porém, que absorveu a chuva da graça de Deus, produzindo fruto de arrependimento, essa recebeu a bênção de Deus (Hb 6:7). Estes são os “vós outros”, acerca de quem afirmou o apóstolo: “quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação...” (Hb 6:9). “Aqueles”, porém, são impossíveis de serem conduzidos ao arrependimento (Hb 6:4).

Em contrapartida, os cristão-judeus não deveriam nutrir pelo judaísmo nenhuma admiração. Ao olharem para o templo com todas as suas festas e cultos, assim como para os seus sacrifícios e ofertas, precisavam vê-los como coisas envelhecidas e obsoletas, como verdadeiros rudimentos (Hb 8:13). Deveriam olhar para o Crucificado e concebê-lo como a perfeição e plenitude da verdade revelada. Era necessário que chegassem ao ponto de total desprezo àquilo que já não mais significava no plano de Deus. Como disse o apóstolo Paulo, em outro lugar: “Mas o que, para mim, era lucro...” – ou seja, a circuncisão, a linhagem israelita, a pureza de “raça”, o farisaísmo (enquanto seita mais severa do judaísmo), o zelo e a justiça da lei –, “... isto considerei perda... e o considero como refugo (excremento de animais), para ganhar a Cristo” (Fp 3:5-8). Essa mesma exortação continua a ecoar nos dias de hoje e a exortar os verdadeiros filhos de Deus a abandonarem o antigo testamento enquanto norma de doutrina e prática, e a avançarem para a perfeição e plenitude de Cristo, no novo testamento.

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