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Não faça qualquer coisa que leve o próximo a cair em pecado

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Atualmente, uma grande Babel pode ser percebida no cristianismo. A evidência dessa manifestação se caracteriza pelas diversas denominações, cada uma com suas próprias doutrinas. Em muitos desses segmentos do sistema religioso a cultura e a tradição influenciaram na criação de doutrinas de homens, o que expressa confusão religiosa e incoerência com o todo da Bíblia.

Diferentemente de Jesus Cristo, o qual nos trouxe a doutrina de Deus em realidade, os homens criam suas próprias doutrinas por maldade ou desconhecimento, o que vai de encontro à sã doutrina registrada em verdade nas Escrituras neotestamentárias.

As doutrinas de homens têm a peculiaridade das proibições, na forma de ordenanças, as quais estão relacionadas com bebidas, comidas, vestimentas e outros comportamentos meramente de cunho exterior do ser humano.

Para justificar as doutrinas humanas, há quem se valha de textos isolados (versículos completos ou em partes) fora do seu respectivo contexto na Escritura. Não é de se admirar quando pensam que, dessa forma, as ordenanças inventadas ficam fundamentadas com o devido argumento bíblico.

Tratemos, portanto, acerca de uma porção bíblica muito pouco compreendida, posto que comumente utilizada (de forma restrita) para justificar a proibição do consumo de bebidas, passando assim por distorção da parte de homens:

Romanos 14:21 (RA) - “É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer].”

Com embasamento nesse versículo, de forma isolada, não poucos religiosos justificam:

“Está vendo? É a palavra de Deus dizendo que o certo é não beber bebida alcoólica, porque isso leva as pessoas mais fracas a se embriagarem e a cair em pecado. Por isso não podemos e não devemos beber bebidas alcoólicas.”

Questiono ao leitor: Essa explicação retrata em realidade o que está escrito naquela porção bíblica, considerando todo o contexto e as demais Escrituras?

Para chegarmos à resposta consistente, dada pela própria Escritura, será necessário proceder de forma semelhante a que Jesus fez no deserto da tentação. Ao ser tentado pelo Diabo, o qual citou uma porção das Escrituras de forma isolada para distorcer o sentido do texto, Jesus falou o que também está escrito. Dessa forma, a completude da interpretação proporcionou o correto entendimento da porção das Escrituras.

Do mesmo modo, para entender a citação de Romanos 14:21, precisamos ler o texto do capítulo e verificar o que também está escrito:

Romanos 14:1-23 - “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões. Um crê que de tudo pode comer, mas o débil come legumes; quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster. Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus. Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus. Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão. Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura. Se, por causa de comida, o teu irmão se entristece, já não andas segundo o amor fraternal. Por causa da tua comida, não faças perecer aquele a favor de quem Cristo morreu. Não seja, pois, vituperado o vosso bem. Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros. Não destruas a obra de Deus por causa da comida. Todas as coisas, na verdade, são limpas, mas é mau para o homem o comer com escândalo. É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer]. A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado.”

Esse capítulo, no qual está incluído o versículo 21, começa tratando sobre aceitar aquele que é fraco na fé entre os irmãos, sem criticar as opiniões dessa pessoa.

O texto continua com duas advertências. A primeira, feita a quem come de tudo (que não é débil na fé), para que não despreze quem não procede dessa maneira. Já a segunda, foi feita a quem só come verduras e legumes (que é fraco na fé), para que não condene quem come de tudo. O texto segue com a tratativa sobre esses dois tipos de irmãos, adicionando o exemplo de quem pensa que certos dias são mais importantes, enquanto outros pensam que todos os dias são iguais, figurando o fraco e o que não é débil na fé, respectivamente. Dessa forma, quem faz uma coisa ou outra deve estar bem firme nas suas opiniões, tendo a convicção de que está fazendo isso ou aquilo para o Senhor, sem julgar ou desprezar o próximo.

Mesmo assim, a advertência inicial é reiterada na sequência: o fraco na fé não deve condenar o que come de tudo, ao passo que o que come de tudo não deve desprezar o débil na fé. Ora, o fraco pensa que só pode comer verduras e legumes, consequentemente acha que deve ser condenado o que come de tudo. Diferentemente, o que tem a convicção que pode comer de tudo, acha que por isso pode desprezar o que come somente verduras e legumes. Eis o motivo de tal advertência por parte do apóstolo Paulo.

Logo em seguida, a Escritura apresenta o seguinte versículo chave:

Romanos 14:13 - “Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não pordes tropeço ou escândalo ao vosso irmão.”

O contrário de “julgar uns aos outros” é definido pela Escritura como “não pôr tropeço ou escândalo ao irmão”. É interessante sabermos que na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) da Bíblia, foi utilizada a expressão “cair em pecado” nesse versículo. Vejamos:

Romanos 14:13 (NTLH) - “Por isso paremos de criticar uns aos outros. Pelo contrário, cada um de vocês resolva não fazer nada que leve o seu irmão a tropeçar ou cair em pecado.”

O que significa “pecado”, “tropeço” e “escândalo”? Continuemos a análise exegética do texto para entendermos o que a própria Escritura nos apresenta como definição.

Nessa porção, o apóstolo Paulo explica que nenhuma coisa é impura, exceto para quem considera determinada coisa impura. Portanto, alguma coisa fica impura somente para a pessoa que considera dessa maneira. Vale lembrar que essa “coisa” retrata no contexto os exemplos de itens relacionados a preceitos e doutrinas dos homens, tais como: comer, beber ou considerar determinado dia como mais importante que outro.

Em seguida, há uma advertência para quem não é débil na fé, a qual fala sobre não fazer o fraco ficar triste por causa daquilo que se come e não fazer esse irmão perecer por causa de comida, não dando assim motivo para falarem mal daquilo que se acha bom.

Neste ponto, apresento o seguinte questionamento para reflexão do atento leitor: Como é que o fraco na fé, o qual foi advertido a não julgar o que come de tudo, poderia ficar triste ou se perder por causa daquilo que o irmão que não é fraco come? Porventura teríamos que deixar de comer alguma coisa que outra pessoa acha que não se deve comer?

Prossigamos com a análise exegética do texto para compreender o que a própria Escritura nos fala a esse respeito.

O texto continua com a abordagem de que o Reino de Deus não é uma questão de comida ou de bebida, mas de viver corretamente, em paz e com a alegria que o Espírito Santo dá. Percebe-se que o texto estava tratando de comida, mas foi incluído um exemplo de item alternativo nesse ponto, a bebida. Portanto, vale lembrar que comida, bebida ou considerar determinado dia mais importante são exemplos para abordar as advertências que são relacionadas nesse texto.

Na sequência, o texto reitera que todos os alimentos podem ser comidos, mas é errado comer alguma coisa quando isso faz com que outra pessoa caia em pecado ou o comer com escândalo. Logo em seguida, vem o versículo 21:

Romanos 14:21 (NTLH) - “O que está certo é não comer carne, não beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa que leve um irmão a cair em pecado.”

É importante identificar que a expressão “cair em pecado” (na NTLH) equivale à expressão “tropeçar [ou se ofender ou se enfraquecer]” (na Almeida Revista e Corrigida - RA). Cabe ressaltar que abordaremos a seguir sobre a definição do que é “pecado”, discriminada em específico nesse contexto.

O capítulo termina com os seguintes dizeres:

Romanos 14:22-23 (RA) - “A fé que tens, tem-na para ti mesmo perante Deus. Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova. Mas aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz não provém de fé; e tudo o que não provém de fé é pecado.”

Essa porção termina definindo o que é pecado nesse contexto: o que não provém de fé. Portanto, aquele que tem dúvidas é condenado se comer, porque o que faz é pecado (não provém de fé). Isso não quer dizer que o apóstolo está relativizando o pecado, ou seja, para alguns não é pecado comer (ou beber) e para outros é.

De acordo com essa porção da Escritura, pecado é fazer alguma coisa com dúvidas, pensando se realmente não é errado. Dessa forma, o texto diz sobre a necessidade de cada um estar bem firme nas suas opiniões, porque o pecado é fazer alguma coisa com dúvidas: “Será que posso mesmo comer isso?”, “Será que é errado beber aquilo?”, “Será que posso mesmo deixar de considerar determinado dia como mais importante?”

Com a definição do que é pecado, dada pela própria Escritura, voltemos a dois versículos da porção abordada e consideremos a definição de pecado desse contexto, para que o nosso entendimento tenha cunho exegético e hermenêutico, sabendo agora o que também está escrito. Vejamos os versículos 13 e 21 considerando o significado da palavra “pecado”, conforme definido no versículo 23:

Versículo 13: Não nos julguemos mais uns aos outros; pelo contrário, tomai o propósito de não fazer nada que leve o vosso irmão a fazer algo com dúvidas, se isso é puro ou impuro.

Versículo 21: É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer qualquer outra coisa com que teu irmão venha a fazer algo com dúvidas, se isso é puro ou impuro.

Entendendo em realidade o que significa o versículo 21, podemos vislumbrar como a leitura isolada de um versículo bíblico, que desconsidera definições do seu respectivo contexto, causa tremendo prejuízo na interpretação e no entendimento. A prática da leitura parcial está presente em muitas denominações do cristianismo contemporâneo, o que acarreta na criação de diversas doutrinas de homens.

Com o entendimento clarificado dessa porção bíblica, podemos fazer uma relação harmônica com outros textos das Escrituras, como por exemplo: Colossenses 2, Efésios 5, Mateus 11, Mateus 15, Lucas 7. Em todas essas porções, dentre outras, vemos as Escrituras em voz uníssona a afirmar que na atual dispensação da graça não há proibição para o consumo de bebida, de comida ou deixar de guardar determinado dia.

Tais proibições em realidade não fazem parte da doutrina de Deus, mas sim das doutrinas de homens. O que acontece atualmente é uma distorção dos textos por parte de homens que não fazem a leitura do que também está registrado nas Escrituras. Com relação ao texto abordado, muitos tomam o versículo 21 de forma isolada para justificar somente a proibição do consumo de bebidas alcoólicas.

O cristão atento já se perguntou por que esse versículo não é utilizado para a proibição do consumo de comidas?

Um argumento comumente utilizado por muitos defensores das doutrinas de homens, os quais proíbem o consumo de bebidas, é: “Se bebermos e uma pessoa que é alcoólatra ver isso, ela vai cair em pecado, consumindo bebida em excesso só porque nos viu bebendo.”

Neste momento, alguns pontos carecem da reflexão do leitor, considerando a relação entre os textos das Escrituras (intertexto) que falam sobre esse assunto.

Na época de Jesus e de seus apóstolos havia o problema do alcoolismo na sociedade. (Mateus 11:19, Efésios 5:18, 1 Coríntios 11:21, Tito 2:3).

Se fosse realmente assim como muitos pregam, utilizando o argumento acima exposto, por que Jesus não se privou de comer e beber vinho com publicanos e pecadores? (Lucas 7:34).

Porventura, estaria Jesus influenciando e corroborando para que algum fraco na fé se embriagasse? De modo algum.

Seria Jesus (ou um discípulo seu) responsável por alguma pessoa consumir bebida alcoólica em excesso? É evidente que não.

Jesus multiplicou o vinho na festa de casamento. (João 2:1-11) Havia a possibilidade de alguém se embriagar? A responsabilidade pelo consumo em excesso seria de Jesus, que multiplicou o vinho, ou seria da pessoa que tivesse consumido? A bondade e a misericórdia do Filho de Deus são a expressão do próprio Pai, que nos abençoa abundantemente. Se a bênção recebida de Deus é utilizada de forma imprudente, consequentemente não deve ser atribuída como responsabilidade Daquele que concedeu a bênção.

E as duas multiplicações de pães e peixes (Mateus 14:13-21 e Mateus 15:32-38), por que os líderes do sistema religioso evitam pregar sobre o excesso de comida? Só vale o excesso de bebida, e somente bebida alcoólica?

Será que Jesus Cristo seria aceito nas denominações do cristianismo, sabendo os líderes delas que ele multiplicava vinho e bebia com pecadores?

Por essas e outras, que a porção de Romanos 14 nos apresenta que há o fraco na fé, o qual pensa que não pode comer de tudo ou beber ou que deve considerar determinado dia como mais importante. Esse tipo de irmão foi advertido a não julgar o irmão que come de tudo, porque não é pecado comer de tudo.

Como então o fraco poderia ficar triste ou se perder por causa daquilo que o irmão que não é fraco come, sendo que o pecado é comer com dúvidas se aquilo que se come é puro ou impuro?

Quem come de tudo não deve desprezar o que não come. Se o que come de tudo desprezar o que não come, consequentemente não o esclarecerá sobre o que é correto e irá influenciá-lo pela circunstância a comer ou a beber aquilo que pensa ser errado consumir. Sendo influenciado, o fraco tentará evitar o desprezo. Dessa maneira, o irmão mais forte na fé estará agindo de forma errada, ao influenciar por desprezo o irmão fraco, sem lhe esclarecer o que é correto em realidade.

Portanto, no texto em questão, há o seguinte esclarecimento:

Romanos 14:17-19 (RA) - “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens. Assim, pois, seguimos as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros.”

Fica evidente que as Escrituras são coerentes, mas há muita incoerência proporcionada por homens maus que fazem uma leitura errônea dos textos sagrados e inventam muitas doutrinas para justificar preferências pessoais e motivações diversas, incorrendo em apostasia. De sorte que os acontecimentos do cristianismo atual são para que se cumpram as Escrituras.

No amor de Cristo,

José Maria Júnior

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